LuizGonzaga_Logo(PNG)
Final da Página
www.edimilsonmendes.com

* REPORTAGENS * - Sobre o Rei do Baião

 

2002 - DIÁRIO DA REGIÃO "Jornal da Região do São Francisco" - 01/04/2002, Texto do Jornalista NEY VITAL

    LUIZ GONZAGA, POESIA E O UMBU "O SABOR NATURAL DO SERTÃO"

- No Seminário Sobre Umbuzeiro, realizado em Juazeiro, recebi através da assessoria do IRPAA, Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada um folder -- Umbu o Sabor Natural do Sertão -- com informações das bênçãos e valores que o fruto proporciona aos nordestinos, tomei conhecimento que o Umbu, também chamado de Imbu, na língua tupi-guarani significa árvore que dá de beber, fruto de um sabor especial é também extremamente nutritivo e de acordo com o escritor Euclides da Cunha é a Árvore Sagrada do Sertão.
- Já produzi vários programas de rádio onde contei que Padre Antônio Vieira, cearense, lá das bandas de Várzea Alegre, terra do compositor Paulo Clementino; amigo de Luiz Gonzaga apontava o Umbuzeiro como a árvore exclusiva da catinga, essencialmente copada de verde e o melhor, um exemplo acabado de economia de reserva capaz de armazenar grande quantidade de água para suprimento, nos longos anos de estiagem, nos tempos de vacas magras (como diz o artista plástico Celestino Gomes).
- O cantador Luiz Gonzaga não deixou de lado a mística e a sonoridade da palavra Umbuzeiro, aliás palavra melodiosa constituída da morfologia numa ordem e disciplina melódica e sistemática, como uma partitura musical; são nove letras, nove notas formadas em sua maioria pelas vogais, que são pilastras mestras das palavras; cinco vogais que constroem poesia e mais músicas de melhor qualidade para o cancioneiro brasileiro.
- Com efeito costumam dizer os pesquisadores que não há nenhuma sociedade sem canções, sem lendas, sem poesia, afinal Ferreira Gullar já profetizou que a verdade da poesia é a verdade que comove. Por isso comove, encanta o Umbuzeiro ao trazer vida e reflexão para a existência de Deus na conversa do livro aberto, falando no brilho das estrelas, meiguice dos luares sertanejos, gorjeio dos pássaros e na sombra/frutos da árvore ao ensinar as mais profundas lições de sabedoria e sobrevivência para nossa experiência e também conhecimento da humanidade. O sanfoneiro Luiz Gonzaga não afastou a poesia da música, por essa razão foi sempre feliz ao relacionar o trato do homem com a natureza, no sentido de cultivo e preservação. Até parece que o rei, predestinado a gênio sabia que segundo os romanos, a fonte de toda a poesia viria do "canto que as folhas cantam para si na verde solidão dos bosque".
- É aí onde se encontra outra ideia para compreender a música popular produzida no Nordeste.
 

 
 

 Vejamos a letra da toada -- O Riacho do Umbuzeiro, de José Dantas,
um dos mais inspirados parceiros do rei do baião:

"Eu armava a minha rede moreninha
Lá na sombra do Umbuzeiro
Dando cafuné e beijo
Tu me cobria de cheiro;

Tão frondoso e bonito moreninha
Esse velho companheiro
Dava sombra o dia todo
Dava fruto o ano inteiro;

Bem no pé do Umbuzeiro
Tinha um riacho sem fim
O riacho era pro tronco moreninha
O que tu era pra mim

O Umbuzeiro já num flora
Pois o riacho secou
Saudoso da minha linda
Com pena da minha dor".

 Eis aí, um bom exemplo de poesia, sonoridade de palavras vivas, cheias de vida, qual fogos de artifício nas noites de São João embaladas no nome Umbuzeiro. E mais uma vez o rei do baião, puxa a sanfona oferecendo vigor às vogais expressando ternura, afetividade, eco, vibração, emoção e também tristeza, sensibilidade humana ao falar da saudade do amor primeiro.
E assim Luiz Gonzaga cantou em parceria com João Silva:

"Umbuzeiro velho
Velho amigo quem diria
Que tuas folhas caídas
Tuas galhas ressequidas
Iam me servir um dia;

Foi naquela manhãzinha
Quando o sol nos acordou
Que nossa felicidade
Machucou tanta saudade
Que me endoideceu de amor;

Indiscreto passarinho
Solitário cantador
Descobriu nosso segredo
Acabou com nosso enredo
Bateu asas e voou;

Hoje vivo pelo mundo
Tá qual um vento vem
Assobiando o dia inteiro
Quando vejo um Umbuzeiro
Me lembro de ti meu bem".
 

 

- Por tudo isso é que se explica, confirma a eterna atualidade de Luiz Gonzaga n música popular brasileira. Agora peço licença, (marquei com Hugo Comunista e Joseph Bandeira) para tomar uma lapada de cachaça marca nacional com tira-gosto de Umbu ou IMBU. Eta Nordeste arretado, oxente!!!
 

Fonte: -- Reprodução na íntegra, da reportagem de Ney Vital no Diário da Região do São Francisco, Caderno Dois, de 01/04/2002
                 (Acervo de Edimilson Mendes)
 

     

2002 - JORNAL DO COMMERCIO "Recife-Pe" - 12/03/2002, Texto do Jornalista JOSÉ TELES 

   40 ANOS SEM ZÉ DANTAS,
   autor de clássicos imortalizados pela voz de Luiz Gonzaga
   Médico e compositor, ele assina pérolas como Riacho do Navio, Xote das meninas e Vem morena

- Ontem completaram-se 40 anos da morte de Zé Dantas (José de Souza Dantas). Falecido, em 11 de março de 1962, no Rio, aos 41 anos, o compositor deixou uma das obras mais importantes da MPB, que inclui clássicos como Riacho do Navio, Xote das meninas, e Vozes da seca. Suas composições (a maioria em parceria com Luiz Gonzaga, embora muitas tenham sido feitas por ele sozinho), continuam sendo regravadas até hoje.
- Gonzagão conheceu Zé Dantas em 1947, no Recife, onde vinha pela primeira vez como artista consagrado. Estava precisando de um parceiro que soubesse das coisas do Sertão, já que havia desfeito a parceria com Humberto Teixeira. Foi numa festa na residência de um amigo, no Pina, que, o ainda acadêmico, Zé Dantas mostrou suas composições a Gonzaga. De família tradicional sertaneja, quando o Rei do Baião disse-lhe que iria gravar suas músicas, fez uma exigência: não queria que seu nome aparecesse. Tinha medo de que o pai cotasse-lhe a mesada. E com razão. Quando se formou em medicina pretendeu celebrar a efeméride com um baião. O pai foi contra, alegando que formatura era coisa séria. Ele fez nova letra, dessa vez usando o nome da irmã Leda. O coronel Zé Dantas novamente foi contra: não queria o nome da filha cantando no rádio.
- O baião Vem morena foi a primeira música de Zé Dantas (co-assinada por Gonzaga) a ser gravada, em 1949. No Ano seguinte, formado, Dantas mudou-se para o Rio de janeiro, dividindo-se entre a música e a medicina (chegou a ser diretor folclórico da Rádio Mayrink Veiga). Em meados dos anos 50, passou a dedicar-se mais à medicina, e a compor menos. Mesmo assim continuou sendo gravado por Luiz Gonzaga até a sua morte.
- Os jornais do Recife não noticiaram sua morte. Tomou-se conhecimento do falecimento do compositor pelo aviso fúnebre, pago pela família, publicado no Jornal do Commercio em 13 de março de 1962.

Uma máquina bem azeitada de vender discos

- De 1947 a 1957, Luiz Gonzaga foi o maior vendedor de discos do País. O 78rpm com A dança da moda (de Zé Dantas), por exemplo, vendeu 150 mil cópias, um recorde na época. (A banda, o maior sucesso de Chico de Buarque, vendeu 100 mil compactos, em 1966, um assombro!).
- O "doutor" era compositor prolífico e de inspiração fácil. Entre 1953 e 1955, Luiz Gonzaga lançou dezessete 78rpm. Desses, 70% das músicas levam a assinatura de Zé Dantas, que compunha geralmente partir de fatos reais. A Letra I, por exemplo, foi feita para a namorada (depois esposa) Iolanda (que hoje mora no Recife). Balaio de Veremundo, surgiu de uma visita de Zé Dantas e Luiz Gonzaga ao lendário coronel Veremundo Soares, em Salgueiro. Sabiá foi inspirada numa peleja entre Lourival Batista e Pinto do Monteiro.
- Vem Morena, Acauã, Paulo Afonso, Algodão, Derramao o gai, Forró em Caruaru, Forró de Mané Vito, Siri jogando bola, Cintura fina, A volta da asa branca, ABC do Sertão, uma pequena mostra do legado de Zé Dantas. Excetuando-se o próprio Luiz Gonzaga, nenhum compositor pernambucano é autor de tantos clássicos conhecidos nacionalmente, ou foi gravado por tanta gente: Alceu, Gil, Caetano, Marisa... (J.T.)
 

Fonte: -- Reprodução na íntegra, da reportagem de José Teles no Jornal do Commercio, de 12/03/2002
                 (Acervo de Edimilson Mendes)

 

     

1957 - REVISTA RADIOLANDIA - Texto do Jornalista OSWALDO MIRANDA

   -ÊSTE CABRA DA PESTE É MEU HERDEIRO ARTÍSTICO!

Luís Gonzaga revela, por nosso intermédio, a figura do sanfoneiro e cantador José Domingos de Faria, que também é o Dominguinho ou o Nenen -- O "Lua" deu a notícia primeiramente para as pessoas que festejavam seu aniversário, na casa branca do Caxambi -- Dominguinho é um garotão de Garanhuns, tem 16 anos e toca há 9 -- Sua carreira começa bem, mas o pior é que ainda não há gaita para comprar um bom instrumento -- E sem instrumento...
- Luís Gonzaga fazia anos. Era o dia 13 de dezembro de 1956. Coisa recente. Sua bonita casa do Cachambi estava em festa. Convidados em penca para comemorar com o "Lua" mais um aniversário. Lá à certa altura, começou o forró. Gonzaga primeiro e depois os outros, em sua pista. Foi quando surgiu no meio da sala, com a sanfona do "Lua", o garôto Dominguinho, o José Domingos de Faria, que é para os mais chegados o  Nenen. Tocou bonito, acompanhou o Gonzaga e cantou, bem na escola do popular cantor do Nordeste e que trouxe para o nosso convívio a beleza dos baiões e dos xaxados. O "Lua" sorria, feliz e num instante da festa parou e disse para os presente:
--- Ouçam bem esse cabra,  o Dominguinho. Toca pá daná e canta no jeito dos Gonzagas. Podem tomar nota: êle vai se o meu herdeiro artístico. Digo isto com a maior sinceridade e estou pronto a apoiar sua carreira.
- Uma salva de palmas coroou as revelações de Luís Gonzaga. Êle estava abrindo o caminho para um valor novo da música regional do Brasil, depois de ter dado a mão a todos os seus irmãos, o último dos quais, o Severino Januário, brilha de verdade, pois foi agora, no último trimestre de 1956, o artista que melhor recebeu de direitos de autoria e execução, na" RCA Victor".
          Mas, voltando ao Dominguinho: o garôto nortista ficou contente da vida com o anúncio feito pelo "Lua". Recebeu abraços e, também incentivado de perto pelo grande amigo Pato Prêto, meteu mãos à obra - sabendo-se, já, o autêntico herdeiro artístico do grande Luís Gonzaga e cônscito de toda a responsabilidade que isso representa.

* * *

- José Domingos de Faria tem tocado por aí -- Tocado e cantado. Onde quer que vá, agrada. Agrada invariàvelmente. É bom de fato. Tem a cabeça chata e cara larga, tudo dominado por uma testa de ampla superfície que logo detona sua inteligência. Farta cabeleira -- o cabelo de Dominguinho é castanho-escuro, de ondas largas e sedoso -- orna sua cabeça e um sorriso leal está sempre aberto em sua boca, também larga.
- Um tarde dessas fui encontra-lo dentro do estúdio de gravação da RCA Victor. Luís Gonzaga punha na cêra mais duas melodias, o caruaru "Capital do agreste", de Onildo Almeida e Nelson Barbalho, e o baião "A Feira de Caruaru", de Onildo Almeida. O Regional de Canhoto apostos, os ritmistas, Erasmo Silva e o côro, o maestro Zacarias, o técnico Antônio Soluri, o diretor-artístico Paulo Rocco -- todo mundo a postos. Espiei pelo vidro da sala da técnica e fiquei surpreso quando vi que o môço que solava acordeon era exatamente o José Domingos de Faria! Estava tirando um som bonito de seu instrumento -- seu, não, do Luíz Gonzaga. Dominguinho não tem instrumento e isso está sendo mau em sua carreira. Só pode tocar quando Luís lhe empresta o dele.
- Terminadas as gravações falei com os dois. Domingos estava feliz. Estreava em gravações comerciais, solando e acompanhando o grande Luís Gonzaga, sendo que uma das composições aprendera horas antes. Era uma prova de sua capacidade e, também, da confiança que Luís nêle deposita. O menino com cara de cangaceiro não podia conter seu contentamento.
- Num canto do estúdio fizemos algumas fotos, enquanto Severino Januário, com sua sanfoninha de oito baixos, gravava suas coisinhas bonitas.
- Luís confirmou tudo: -- Êste môço é meu herdeiro artístico. Estou ajudando a êle e espero que o público o consagre. Dominguinho merece vencer como artista.

* * *

- Conversamos, enquanto Luís cantava e o garôto fazia tudo o que sabe com o acordeon, solando inclusive uns expressivos melódicos.
- Fiz então minhas anotações. José Domingos de Faria, o Dominguinho ou o Nenen, nasceu em Garanhuns, Pernambuco, tem 16 anos e toca há 9. Sempre apreciou o gênero de Luís Gonzaga. Está no Rio dede 1953 e já tocou na "Hora Sertaneja", do Zepraxede, na Nacional, e na "Hora Sertaneja", da Tamoio. É dono de ouvido absoluto, toca com classe e canta no gênero nordestino, com agrado geral.
 

Fonte: -- Reprodução na íntegra, das páginas 40 e 41 da Revista Radiolândia, 1957
                (Acervo de Paulo Wanderley)
 

     
Reportagens sobre o Rei do Baião
Início da Página
 
www.edimilsonmendes.com                                    Atualizado em Abril de 2017                                    Copyright © 2015 - osósia