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* JOVEM GUARDA *
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"O futuro pertence à jovem guarda porque a velha está ultrapassada". Frase descontextualizada pelo publicitário "Carlito Maia", a frase do líder soviético "Vladimir Lênin" batizou no Brasil, em 1965 um dos Programas de Televisão de maior audiência:  "O Programa Jovem Guarda", apresentado pelos emergentes cantores e ídolos juvenis Roberto Carlos (O Rei), Erasmo Carlos (O Tremendão) e Wanderléa (A Ternurinha).  Inicio: no domingo 22 de agosto de 1965, às 16h30 (com duração de uma hora), no auditório da TV Record, situado à rua da Consolação, São Paulo,  e final: mês de maio de 1968 (sem a presença de Roberto Carlos, que se afastou em 14 janeiro desse mesmo ano).
     No auge da sua popularidade, ele chegou a alcançar três milhões de espectadores só em São Paulo, de onde era transmitido. Em videotape, ele chegava também ao Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife. Mais do que uma boa idéia para preencher o horário que ficou vago por causa da proibição da transmissão direta dos jogos do campeonato paulista de futebol, foi uma excelente forma de derrotar o Festival da Juventude (líder de audiência da TV Excelsior desde 1964) e de vender um monte de quinquilharias (de discos a calças, blusas e até bonecas). O programa Jovem Guarda foi o catalisador de um movimento que pôs a música brasileira em sintonia com o fenômeno internacional do rock, a essa altura, no seu segundo momento, o da invasão britânica liderada pelos Beatles e deu origem a toda uma nova linguagem, musical e novos padrões de comportamento.
     Entravam em cena as guitarras elétricas, incorporadas de vez à música brasileira mais típica pelo movimento seguinte, a Tropicália. A idéia de uma música exclusivamente jovem, com signos jovens, mais até do que na bossa nova e, toda uma constelação de artistas: Bobby Di Carlo, Deny e Dino, Ed Wilson, Eduardo Araújo, Jerry Adriani, Leno & Lílian, Martinha, Waldirene
(A Garota do Roberto), Wanderley Cardoso, e grupos como Golden Boys, Os Incríveis, Os Vips, Renato & Seus Blue Caps, e tantos outros. O programa de TV acabou, mas a estética da Jovem Guarda nunca deixou de estar presente na música brasileira feita a partir da década seguinte.
 

OS PRIMEIROS ÍDOLOS 
Os primórdios do movimento devem ser procurados na segunda metade dos anos 50, quando o país começou a ser exposto à informação rock’n’roll, através dos discos de Elvis Presley e Bill Haley, da Revista do Rock e de programas como Hoje É Dia de Rock (de Jair de Taumaturgo, na Rádio Mayrink Veiga carioca), Clube do Rock (de Carlos Imperial, na TV-Rio) e Crush em Hi-Fi (na TV Record, de São Paulo). No fim daquela década, o país ganhou seus primeiros ídolos do rock: a paulista Cely Campello (de Estúpido Cupido, versão de Stupid Cupid, de Neil Sedaka), Carlos Gonzaga (de Diana, versão para música de Paul Anka), Sérgio Murilo (de Marcianita e Broto Legal), Tony Campello (irmão de Cely), Demétrius, Albert e Meire Pavão. Eles representaram o rock em sua vertente mais adocicada, a das baladas. O contraponto selvagem, da eletricidade, de Elvis e Chuck Berry, ainda estava sendo gestado.
     Na Tijuca, bairro do subúrbio carioca, essa era a curtição de uma turma de rapazes que se reuniam na Rua do Matoso. Em 1958, China
(José Roberto), Arlênio Trindade, Tim Maia, Erasmo Carlos e Roberto Carlos formaram o grupo Os Sputniks, que acabou no mesmo ano, mas não sem antes chamar a atenção de um sambista de idéias elétricas que andava pela área "Jorge Duílio Lima Meneses, o Jorge Ben". Em 1960, o rock da Juventude Transviada brasileira teria seu primeiro sucesso "Rua Augusta", de Ronnie Cord (Ronald Cordovil). Mas era tarde, o gênero começava a perder seu impacto, acossado pela bossa nova. No começo dessa década, Cely Campello deixou a música para se casar e Roberto Carlos foi cantar bossa.
     O rock, porém, resistia nos subúrbios de Rio e São Paulo, onde surgiram grupos vocais como Golden Boys (de Alguém na Multidão) e Trio Esperança (de A Festa do Bolinha, formado por irmãs dos Golden Boys) e instrumentais, na onda do Twist (inspirada pelo sucesso Let’s Twist Again, de Chubby Checker), como Renato & Seus Blue Caps (no qual Erasmo Carlos chegou a cantar), The Jordans, The Jet Blacks e The Clevers (futuro Os Incríveis). No entanto, Sérgio Murilo, Ronnie Cord e Demétrius seguiram década adentro fazendo rock-balada, ao lado de recém-chegados como George Freedman (Coisinha Estúpida) e Wanderléa.

 

O INÍCIO DO REINADO 
Mas, em 1963, um renovado Roberto Carlos apareceu com Splish Splash (versão de Erasmo para música de Bobby Darin), rock que daria título ao seu LP daquele ano. Parei na Contramão, o sucesso seguinte, abriu o caminho para o seu grande estouro: O Calhambeque. Com isso, Roberto não só renovou sua inscrição no clube do rock, como iniciou seu reinado naquele cenário que mais tarde seria conhecido como Jovem Guarda. Calhambeque seria o destaque de seu LP seguinte, É Proibido Fumar, cuja faixa-título tornou-se outro clássico. O grande parceiro de Roberto, Erasmo Carlos, também começava nessa época sua carreira solo, com o sucesso Minha Fama de Mau.
     Em 22 de agosto de 1965, quando o programa Jovem Guarda estreou, o cenário do movimento estava quase que completamente montado - Wanderley Cardoso (era O Bom Rapaz), Eduardo Araújo (era O Bom), Jerry Adriani (era O Italianíssimo), Martinha (era O Queijinho de Minas), Rosemary (era A Boneca Loura Que Canta), Ronnie Von (era O Pequeno Príncipe). Outros que também chegaram: Sérgio Reis, Antonio Marcos, Vanusa, Agnaldo Rayol, The Fevers, Ed Wilson (irmão de Renato e Paulo César Barros, do Renato & Seus Blue Caps), Prini Lorez, The Pop’s. Naquelas "jovens tardes de domingo", a palavra de ordem era iê-iê-iê, adpatação do "yeah, yeah, yeah!", da música She Loves You, dos Beatles - não por acaso, o filme do quarteto, A Hard’s Day Night, foi exibido no Brasil com o título de Os Reis do Iê-Iê-Iê. A maior parte das letras eram ingênuas e recatadas, e boa parte das músicas, eram versões de sucessos do rock americano, britânico, italiano e até japonês - Erasmo Carlos, Renato Barros e Rossini Pinto eram os grandes versionistas.
     Havia, porém, quem insistisse em compor - os de maior destaque foram a dupla Roberto & Erasmo, Getúlio Côrtes (de Negro Gato, cantada por Roberto), Leno, Carlos Imperial e o próprio Rossini Pinto. As relações entre a jovem guarda e a bossa nova nem sempre foram cordiais. Havia quem, como Jorge Ben, transitasse entre os dois programas: o "Jovem Guarda" e o "Fino da Bossa". Mas Elis Regina, que apresentava o Fino da Bossa com Jair Rodrigues, chegou a liderar uma passeata contra as guitarras elétricas.
     Em 1965, Roberto deu o nome do programa ao seu LP: Jovem Guarda, que veio com os clássicos Quero Que Vá Tudo Pro Inferno e Mexerico da Candinha. Em pouco tempo, a moda adotada pelos apresentadores tinha se espalhado pelo país (e dá-lhe calças colantes de duas cores em formato boca-de-sino, cintos e botinhas coloridas, minissaia com botas de cano alto), bem como seus gestos e gírias - broto, carango, legal, coroa, cuca, barra limpa, barra suja, lelé da cuca, mancada, pão, papo firme, maninha, pinta, pra frente e, "É uma brasa, mora?", tudo veio da Jovem Guarda.
 

A EXPLOSÃO NAS GARAGENS 
E o sucesso só fazia crescer: em 1966, o sucesso de Roberto com O Calhambeque havia chegado a Portugal, França, Argentina, Uruguai e México. No mesmo ano, o Jovem Guarda realizou seu I Festival de Conjuntos, do qual participaram cerca de cinco mil. O primeiro colocado foi o grupo paulista Loupha, com o cover para "I Can’t Let Go", dos ingleses The Hollies, e o segundo, o gaúcho The Cleans. Um sinal da explosão no país dos grupos de garagens, que saíam se apresentando em clubes sociais, rádios, televisões regionais, festas de igreja e aniversários e logo estariam embarcando na viagem psicodélica dos americanos e ingleses - caso dos paulistanos "Mutantes", de "Rita Lee" e dos irmãos "Sérgio e Arnaldo Dias Baptista".
     O ano de 1967 traria inesperadas novidades. Por sugestão da irmã Maria Bethânia, o baiano pós-bossanovista Caetano Veloso começou a ver o iê-iê-iê com outros olhos. Ao mesmo tempo, o amigo Gilberto Gil converteu-se aos Beatles. Resultado: no III Festival da Música Popular Brasileira da TV Record, Gil estaria apresentando seu "Domingo no Parque" com os Mutantes e Caetano sua "Alegria, Alegria" com os argentinos Beat Boys. Era a Tropicália, que mais tarde seria apresentada no disco-manifesto Panis et Circencis. Ao mesmo tempo, a Jovem Guarda iniciava o seu declínio. Em 1968, Roberto Carlos ganhou o Festival de San Remo com Canzone Per Te, de Sergio Endrigo e Sergio Bardotti e, no ano seguinte, estaria iniciando sua fase romântica, na qual seguiu pelas décadas de 70, 80 e 90, como um dos maiores cantores brasileiros.
     Quando o programa saiu do ar cada um foi para seu lado. Houve quem seguisse Roberto na carreira de cantor romântico (Wanderley Cardoso, Jerry Adriani, Ronnie Von), quem continuasse no rock (Erasmo, Leno sem Lilian, Os Incríveis) e quem se bandeasse para o brega (Agnaldo Rayol e Reginaldo Rossi, que liderou a banda The Silver Jets em Recife), música sertaneja (Nalva Aguiar, Sérgio Reis) ou mesmo rock rural (Eduardo Araújo). Os Fevers se tornaram uma das mais ativas bandas de bailes e de estúdios e os Golden Boys gravaram coros em muitos discos de MPB.
     Nos anos 80, o Rock Brasil trouxe de volta músicas da Jovem Guarda em regravações de Lulu Santos (O Calhambeque), Blitz (Biquíni de Bolinha Amarelinha, de Sérgio Murilo), Léo Jaime (Gatinha Manhosa, de Erasmo) e Patife Band (Tijolinho, de Bobby de Carlo). Era o ensaio de um revival, que efetivamente ocorreria em 1995, na comemoração dos 30 anos do programa. Remanescentes do movimento (Wanderléa, Erasmo Carlos, Ronnie Von, Bobby de Carlo, Os Vips, Os Incríveis, Martinha, Leno e Lilian, Golden Boys, entre outros) regravaram seus sucessos em uma caixa de cinco CDs e fizeram uma série de concorridos shows conjuntos. Ao mesmo tempo, relançamentos em CD trouxeram de volta quase todo o acervo de gravações originais. E, nos anos 90, as bandas de rock, mais do que nunca, regravaram o repertório da Jovem Guarda: o Barão vermelho foi de "Pode Vir Quente Que Eu Estou Fervendo", os Engenheiros do Hawaii de "Era um Garoto que Como Eu Amava os Beatles e os Rolling Stones", o Skank de "É Proibido Fumar" e Paulo Ricardo de "Você Não Serve Para Mim".
 

 
* UM REI SEM COROA *
Publicado na Folha da Tarde, segunda-feira, 15 de janeiro de 1968
Neste texto foi mantida a grafia original

Muita choradeira no adeus de Roberto Carlos

Câmaras, iluminadores, auxiliares de palco, todos abraçavam comovidos Roberto Carlos quando ele voltou aos bastidores pela ultima vez como dono do programa Jovem Guarda. Dois anos e meio de comando de um programa que revolucionou a TV brasileira encerravam-se naquele momento. Alguns choravam, outros mal podiam falar. Roberto Carlos, pálido e com um sorriso triste, agradecia. Paulinho Machado de Carvalho e Marcos Lazaro desceram para abraçá-lo. Entram com ele no camarim. O diretor da Record, o empresário e o cantor, juntos, já combinam os primeiros passos para a volta de RC. Vão todos embora, pouco depois, Roberto está sentado na cadeira, os braços pendidos, com um ar de campeão batido. E fala:
"Estou triste à beça. Esse programa me lançou, me fez. São dois anos e meio de vida, de amizades boas que ficam para trás. Esse programa era muito importante para mim. Mas agora Erasmo e Wanderléa saberão levá-lo para a frente. Erasmo conhece o gosto do publico e tenho certeza que vai ter sucesso, oferecendo o que o publico quer."
Pouco depois, Roberto sai. O movimento à porta do seu camarim é pequeno. Não mais como nos áureos tempos do programa. Os "bicões" e os amigos do auge da fama não vieram para o adeus ao rei, já agora sem coroa.

Razão: Audiência

Paulinho Machado de Carvalho foi claro, falando à reportagem. A audiência do Jovem Guarda desceu para 18 por cento. Isso é pouco para a Record. O programa estava há muito tempo no ar, e sua forma de apresentação já havia saturado o publico. Uma modificação era necessária. A vinda de Carlos Manga, há seis meses, representou uma injeção de efeito temporário. Agora, é preciso que Roberto saia e faço isso no seu próprio interesse. Dois anos e meio de apresentação semanal desgastam qualquer um, mesmo um Roberto Carlos.

Normal

"Quero que todo mundo saiba que a saída de Roberto Carlos é uma coisa absolutamente normal em televisão. O publico é quem manda, a Record programa o que o publico pede. Assim aconteceu com 'Essa Noite se Improvisa', que recentemente teve queda de audiência, foi modificado e voltou a subir de novo. Ronnie Von estava caindo há meses atrás, fizemos contratações, subiu novamente; agora voltou a cair e saiu do ar, para voltar uma vez por mês apenas, como acontecerá com Elis Regina. Fazemos isso na Record, porque é inútil insistir: o publico sabe o que quer. Roberto Carlos continua um artista de grande prestigio - a prova é a magnífica vendagem de seu mais recente LP. O seu cartaz continua enorme. Mas, repito, as suas aparições semanais na televisão, dentro de um mesmo estilo de programa, estavam saturando o publico. Talvez seja culpa nossa, da Record, que não soubemos encontrar uma formula de produção para atrair de novo o interesse do publico. Mas os fatos estão aí, a audiência baixou muito e Roberto Carlos precisa ser preservado, no seu próprio interesse, repito".

Novo Programa

O Jovem Guarda em sua nova fase terá estrutura bem diferente, segundo informou Paulinho. Os cenários serão modificados a cada semana e não haverá mais a apresentação de cada cantor. Quando o pano abrir, todos os participantes estarão no palco. A cena poderá ser numa boate, numa praia ou em qualquer outro ambiente, de acordo com o cenário. As apresentações - que segundo Paulinho tiram muito da dinâmica do programa - só serão feitas em casos de cantores de excepcional cartaz - como o próprio Roberto Carlos, que freqüentemente comparecerá ao Jovem Guarda.

O Choro

O telespectador viu o grandalhão Erasmo Carlos, com seu metro e 86 chorando como um bebê no fim do Jovem Guarda. Cantou "A Valsa de Despedida" entre soluços. Wanderléa também chorou ao cantar e o próprio Roberto também não ficou atrás. Os três cantaram abraçados o "Quero Que Vá Tudo Para o Inferno"- o grande sucesso de RC que ficou 20 semanas em primeiro lugar nas paradas. Todos os cantores agradeceram o que Roberto Carlos fez por suas carreiras. Quando anunciou que Erasmo e Wanderléa assumiriam o comando o publico vaiou. Roberto deu uma bronca, as vaias viraram aplausos imediatamente. Disse também que continuará a cantar samba, mas esporadicamente, como tem feito até aqui. Não abandonará o iê iê iê, pois ele cantou muito tempo musica brasileira sem sucesso; o publico só o aceitou quando passou para a música jovem. Roberto disse também que Miriam Makeba, será uma das atrações internacionais a se apresentarem no seu novo programa.

Na Europa

Quarta-feira à noite Roberto Carlos embarcará para Londres onde deverá se encontrar com os Beatles. Descansará um pouco na capital inglesa e depois irá para Cannes, a fim de se apresentar no festival da MIDEM (que reúne os maiores vendedores de discos de diversos países). Em seguida participará do Festival de San Remo (dias 1, 2 e 3), para defender uma musica de Beretta ou de Sergio Endrigo. As duas fitas foram gravadas na CBS, sexta-feira ultima e enviadas para a Itália. A CBS italiana decidirá qual delas é a melhor para o Festival e Roberto Carlos cantará a escolhida (em italiano). Dia 6 de fevereiro RC voltará para abrir a nova fase do Jovem Guarda carioca, na TV Tupi. Ainda em fevereiro deverá começar "O Rei e Eu", na Record, com Chico Anísio.


Em janeiro de 1968 aconteceu o afastamento de Roberto Carlos do Programa, para cuidar melhor da sua carreira, tendo em vista que a audiência vinha caindo e, ele iria participar do Festival de San Remo na Itália, que por sinal teve naquele ano ele como o primeiro estrangeiro (ou seja, não italiano) a ganhar aquele festival.


Jovem Guarda

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